Pandemia convida sociedade a repensar gestão dos resíduos

Pesquisadores e catadores apontam desafios no modelo de gestão de resíduos agravados pela disseminação do novo coronavírus e o CEO da Retalhar dá sua opinião a respeito 

A pandemia da Covid-19 aumentou o uso de embalagens de uso único, máscaras não reutilizáveis e luvas, impondo novos desafios à sociedade. Esse fato é evidenciado pelos relatos de catadores e pelo aumento da quantidade desses itens encontrada no ambiente por pesquisadores, em diferentes regiões do mundo. 

Aumento do uso de embalagens, máscaras e luvas 

De acordo com o Jornal The Guardian, mergulhadores membros da Opération Mer Propre, que atuam coletando resíduos na Côte d’Azur, na França, ficaram preocupados ao encontrar luvas, máscaras e embalagens de antissépticos no mar Mediterrâneo. Segundo o mesmo jornal, a OceansAsia, de Hong Kong, também demonstrou preocupação depois que pesquisadores acharam 70 máscaras em apenas 100 metros de uma ilha completamente inabitada, revelando que o aumento no uso desses itens e sua destinação incorreta já estão gerando poluição para o ambiente. 

No Brasil, o cenário é semelhante. O catador Roberto Rocha conta, no episódio 61 do podcastVozes do Planeta”, que a coleta de recicláveis aumentou durante a pandemia, sem crescimento correspondente na taxa de reciclagem. Ele afirma que o volume de resíduos destinado de modo incorreto cresceu principalmente por causa dos deliverys e que, quando os itens não escapam para o ambiente (ou são jogados intencionalmente), estão sendo enviados diretamente para os aterros sanitários, sem reciclagem. 

Destinação incorreta e saúde dos catadores

Como se não bastasse o cenário dos itens recicláveis que têm escapado para o ambiente ou ido parar no aterro sanitário sem reciclagem, alguns consumidores têm enviado rejeitos perigosos para cooperativas de reciclagem. “Eles estão recebendo muita luva e muita máscara e ficam apavorados quando abrem os sacos com esses itens”, conta Roberto. De acordo com as experiências recentes do catador, as pessoas estão colocando máscaras e luvas usadas no material destinado para a reciclagem, o que aumenta o medo e a vulnerabilidade dos trabalhadores ao vírus. 

Papel dos governos, empresas e pessoas 

Ellen Caroline, colega de trabalho do Roberto, acrescenta que é preciso haver conscientização sobre a importância de não colocar resíduos perigosos, como máscaras usadas, no destino dos recicláveis. Em relação aos recicláveis, ela afirma que eles precisam ser lavados e deixados de quarentena antes de serem enviados para a coleta seletiva, de preferência em sacos azuis, que são próprios para isso. Já as máscaras e luvas usadas precisam ser bem embaladas, deixadas de quarentena e colocadas no destino dos rejeitos. 

Ambos catadores acreditam que é preciso haver políticas inclusivas, e não o que eles chamam de “assistencialismo”. É necessário haver valorização do trabalho de catação como um negócio viável e aumentar o uso de máscaras reutilizáveis, com um melhor desenho. Além disso, o número de empresas recicladoras também precisa crescer, pois separar o material para a coleta seletiva não é suficiente, já que é preciso que a reciclagem aconteça, de fato.

De acordo com o CEO da Retalhar  “nesse momento, as empresas são os agentes com as melhores condições de combinar agilidade, escala e engajamento de massa”. Para ele, “o  contexto pede ações concretas para reduzir os danos aos mais necessitados sem deixar de redirecionar posicionamentos – e os próprios modelos de negócio – para caminhos de conciliação. Parece pouco provável que tenhamos sucesso a nível nacional e global sem o engajamento direto do setor empresarial. Afinal de contas, não teremos, por exemplo, um grande volume de empresas recicladoras se não houver demanda por material reciclado partindo dos grandes players do mercado”.

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